O PODER DOS RATOS
Há metáforas que não se escolhem por gosto, mas por necessidade. O poder, quando divorciado da ética, não é palácio: é cloaca. Não é tribuna: é sarjeta. Não é altar: é esgoto. E como todo esgoto, corre subterrâneo, fétido, viscoso, transportando detritos morais, dinheiro turvo e criaturas que prosperam na sombra.
O caso Epstein, por exemplo, não foi apenas um escândalo sexual de proporções internacionais; foi a radiografia indecorosa de um sistema que mistura celebridades, bilionários e políticos como se todos compartilhassem a mesma promiscuidade estrutural. Jeffrey Epstein, o financista de passado nebuloso e fortuna opaca, não operava sozinho. Seu círculo incluía nomes graúdos, fotografados, filmados, recebidos com risos e brindes na ilha que se tornou símbolo de degradação moral.
Entre as imagens amplamente divulgadas, há registros de Donald Trump sendo recebido em festas promovidas por Epstein — festas nas quais a presença de jovens, algumas menores de idade, compunha o cenário de escândalo que mais tarde viria à tona. Trump, como outros poderosos, negou envolvimento em ilícitos. Ainda assim, a simples proximidade social com alguém cujo império se sustentava sobre a exploração de vulneráveis revela algo que transcende a tipificação penal: revela a naturalidade com que as elites transitam em ambientes onde a ética é tratada como adereço descartável.
Como escreveu Juvenal, “Quis custodiet ipsos custodes?” — quem vigiará os vigilantes? Quando o poder se confraterniza com o vício, quem se ergue para contê-lo?
No Brasil, a lama não é menos espessa. Vieram à tona mensagens atribuídas a Epstein nas quais ele teceria elogios a Jair Bolsonaro. O conteúdo, por si, pode não configurar crime algum; mas é sintomático. O poder, em suas diversas latitudes, parece reconhecer-se mutuamente, como membros de uma mesma confraria informal. As ideologias que inflamam multidões dissolvem-se em cordialidade quando os convivas compartilham o mesmo patamar social.
O chamado “caso Master” adiciona outro capítulo à crônica do esgoto. A revelação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu Daniel Vorcaro, banqueiro ligado ao Banco Master, em encontros não registrados na agenda oficial, despertou questionamentos legítimos sobre transparência. Reuniões fora da agenda, quando envolvem figuras centrais do sistema financeiro, são sempre terreno fértil para suspeitas. A República exige luz; o poder, ao que parece, prefere a penumbra.
As decisões polêmicas do ministro Dias Toffoli no âmbito do mesmo caso intensificaram a sensação de que as engrenagens da Justiça e do poder político frequentemente operam em sintonia dissonante com o interesse público. E quando se revelou que, segundo informações oriundas de perícia da Polícia Federal no celular de Vorcaro, haveria menções a supostos repasses financeiros envolvendo um ministro do Supremo Tribunal Federal, a metáfora do esgoto tornou-se quase literal: dinheiro, poder e suspeitas escorrendo pelo mesmo cano institucional.
É imprescindível afirmar: acusações devem ser apuradas com rigor, e ninguém deve ser condenado pela turba ou pela retórica. Contudo, o padrão recorrente de proximidades impróprias, encontros opacos e decisões controversas corrói a confiança pública. O esgoto não é apenas o crime comprovado; é também o odor persistente da promiscuidade entre interesses privados e funções públicas.
Nesse ambiente, o povo — a massa — desempenha papel paradoxal. Manipulada por narrativas binárias, escolhe um lado como quem escolhe um time de futebol. Briga com irmãos, rompe amizades, desfaz laços familiares para defender líderes que jamais saberão de sua existência. A paixão política substitui a razão; a lealdade tribal suplanta o espírito crítico.
Enquanto isso, nos salões refrigerados do poder, adversários de palanque conversam com civilidade, trocam confidências e, não raramente, protegem-se mutuamente. O antagonismo público contrasta com a convivência privada. As fortunas familiares crescem “coincidentemente” após o ingresso na vida pública. Filhos tornam-se empresários de sucesso meteórico; parentes ascendem socialmente com velocidade incomum. Tudo, ao menos formalmente, dentro da legalidade — mas sempre à sombra de uma coincidência estatisticamente desconfortável.
A polarização burra — permitam-me a franqueza — é o adubo desse esgoto. Ela entorpece o discernimento coletivo. Transforma corrupção em detalhe quando praticada pelo “meu lado” e em escândalo apocalíptico quando protagonizada pelo “outro”. Cria uma ética elástica, moldável conforme a conveniência ideológica. E assim o país permanece dividido, paralisado, consumindo energia em guerras fratricidas enquanto as estruturas profundas do poder seguem intocadas.
Contraste-se esse cenário com a trajetória de nações que, independentemente de críticas legítimas a seus regimes políticos, souberam priorizar projeto nacional acima de paixões intestinas. A China, por exemplo, consolidou-se como potência em ascensão social, política, militar e econômica não por meio de debates histéricos televisivos, mas por planejamento estratégico de longo prazo, investimento maciço em educação básica e técnica, e disciplina institucional. Pode-se divergir de seu modelo político; é inegável, contudo, que a ausência de polarização autofágica permitiu foco no desenvolvimento estrutural.
O Brasil, ao contrário, parece aprisionado em um ciclo vicioso: escândalo, indignação seletiva, esquecimento conveniente, reeleição de protagonistas, novo escândalo. Como em um sistema de esgoto mal projetado, os detritos retornam à superfície com assustadora regularidade.
A saída não virá de messias políticos. A história é pródiga em demonstrar que líderes carismáticos raramente purificam estruturas contaminadas; muitas vezes apenas aprendem a navegar nelas com maior habilidade. A verdadeira transformação exige algo menos espetacular e mais árduo: educação de base robusta, universal e de qualidade. Educação que ensine lógica, interpretação de texto, história, ética pública e responsabilidade cívica. Educação que forme cidadãos, não torcedores.
Sem isso, continuaremos a assistir ao espetáculo grotesco de massas enfurecidas defendendo seus respectivos ídolos enquanto o poder, em suas múltiplas cores partidárias, trafega pelo mesmo encanamento subterrâneo. Continuaremos a respirar o odor do esgoto institucional e a fingir que se trata de perfume ideológico.
Como advertiu Montesquieu, “Todo homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites.” O problema do Brasil não é apenas o abuso; é a ausência de limites efetivos. E enquanto esses limites não forem construídos por uma cidadania instruída, crítica e vigilante, o esgoto continuará a correr — invisível para uns, insuportável para outros, mas sempre presente.
O poder, quando não fiscalizado, apodrece. E o que apodrece exala. Resta saber se teremos coragem de encarar o odor, limpar as tubulações e reconstruir a casa — ou se preferiremos continuar discutindo qual lado da sarjeta é menos sujo.















