Há alguns meses, talvez há um ano, não sei ao certo , apareci por aqui para parabenizar o município pelo Decreto n.º 187/2025, que reconhecia a Emergência Climática em Paulicéia.
Hoje, em tom de alerta, aproveito este espaço para fazer, em parte, uma denúncia contra um sistema que só intensifica a crise climática e, em outra, um pedido de socorro de quem há tempos trilha o caminho do meio ambiente como forma de aglutinar pessoas e unir distintas visões de mundo.
Diferentes modelos de diversos países apontam para a ocorrência de um “Super El Niño” neste ano. Você já deve ter visto algo na telvê ou mesmo rolando o feed. Mas o que isso tem a ver com Paulicéia?
Antes de responder a essa pergunta, vamos falar sobre o que é esse tal de El Niño. Bem, de tempos em tempos, os ventos que resfriam o Oceano Pacífico (o maior oceano do mundo) perdem força por razões ainda desconhecidas. O Oceano Pacífico aquece, e esse calor afeta a atmosfera, diminuindo a capacidade da grande massa de ar úmido, que gera chuvas nas regiões Norte e Nordeste, de atravessar o país.
O resultado são secas intensas em ambas as regiões, o que afeta o fluxo dos rios da grande Bacia Amazônica e leva à destruição de sistemas agroalimentares, gerando aumento nos preços dos alimentos e tornando a insegurança alimentar um fenômeno que alcança ainda mais gente. Isso sem falar no aumento das queimadas na Floresta Amazônica, que tendem a acontecer com maior frequência, abrangendo áreas gigantescas.
Enquanto isso, aqui no Sul e Sudeste, ocorre o contrário. O calor oceânico intensifica a Massa Equatorial Continental (mEc), responsável pelo regime de chuvas dessa porção mais ao sul do Brasil, o que provoca chuvas intensas, às vezes em curtos períodos. Isso desemboca em enchentes, alagamentos, desmoronamentos em áreas de encosta, intensificação dos processos erosivos, assoreamento de corpos d’água e por aí vai.
Mas não é “só” isso. Estamos lidando com um El Niño que tende a ser o mais forte desde 1870, fenômeno que provocou crises de fome na Ásia e na América, modificando o clima de todo o planeta. Na prática, isso quer dizer que a temperatura do Oceano Pacífico pode aumentar acima de 2 ºC (há quem já fale em 3 ºC).
Esse excesso de energia transformando o clima global pode representar, para nós, no extremo oeste paulista, frequentes ondas de calor acima de 50 ºC, considerando que agora vivemos sob o efeito constante do aquecimento global.
Estamos tratando da necessidade urgente de nos prepararmos, em poucos meses, para conseguirmos atravessar esse momento da melhor maneira possível. Afinal, quem não tem ar-condicionado sofrerá mais com o calor, e quem mora na parte de baixo da ladeira sofrerá mais com as áreas urbanas alagadas.
Achou pouco? Então vamos pensar que estamos próximos da latitude 23º S (o tal do Trópico de Capricórnio). Em razão dessa localização, de tempos em tempos, mesmo com todo esse calor, algumas massas de ar frio conseguem se deslocar até nós, mesmo fora de época. A interação de massas de ar com diferentes temperatura numa zona de baixa pressão atmosférica podem dar origem a movimentos convectivos, provocando ventos intensos e, quiçá, tornados, como os que afetaram Panorama durante o El Niño de 2015.
Ondas de calor, chuvas torrenciais e ventos intensos. Tudo isso afeta a produção e a distribuição de alimentos, a saúde humana e a dos demais seres vivos, além da estrutura das casas e estabelecimentos. E, é claro, a população mais pobre é quem mais sofre.
Diante disso tudo, precisamos, com urgência, de um plano de adaptação climática que considere:
– Plantio de árvores no entorno da cidade para funcionarem como quebra-vento.
– Arborização urbana para atenuar o calor intenso.
Espaços públicos arborizados (estou falando de árvores com copas frondosas) para que a população mais pobre tenha acesso.
– Chafarizes e fontes que, além da função estética, permitam à população mais pobre se refrescar.
– Plantio urbano de alimentos com alta resistência ao clima extremo, como mandioca, abóboras, feijão e outros, especialmente em terrenos públicos ociosos próximos da população.
– Apoio ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a fim de manter de pé nosso cinturão verde e garantir qualidade alimentar e nutricional.
– Climatização de creches, escolas, Centros de Convivência de Idosos (CCI) e outros estabelecimentos públicos.
– Mapeamento de áreas e estruturas mais vulneráveis aos ventos e às enchentes.
– Formação de uma Brigada Civil devidamente preparada para agir imediatamente em situações extremas.
– Acionamento do Conselho Municipal de Meio Ambiente para acompanhar se essas medidas já foram ou estão sendo adotadas.
A grande maioria dessas ações não possui custo elevado, ou possui baixo custo diante das despesas que o Poder Público normalmente assume.
Como cidadão, espero que esses dados estejam errados e que nada disso nos incomode. Porém, é comum que a ciência seja ignorada no início de muitos filmes de terror.
Se esse El Niño se consolidar, veremos esses fenômenos nos afetando a partir do final do mês de agosto, talvez no início de setembro.
Ajude essas informações a chegarem aos tomadores de decisão, seja em Paulicéia ou nos municípios vizinhos, que vivem condições semelhantes.
Paulicéia, 19 de maio de 2026.
Prof. Me. Victor Hugo
CAPA: Imagem Ilustrativa














