Sem anistia!
A palavra de ordem “Sem Anistia”, repetida hoje quase como um mantra moralizante por amplos setores da chamada esquerda brasileira, tornou-se um sintoma eloquente de um problema mais profundo: a substituição da política concreta por gestos simbólicos de autopurificação, da estratégia por slogans, da organização por catarse. Longe de expressar radicalidade real, tal postura revela — para usar a clássica metáfora de Lênin — uma forma recorrente de infantilismo político, cujos efeitos práticos têm sido invariavelmente regressivos.
A ilusão da pureza e a recusa da política
Desde Esquerdismo, doença infantil do comunismo, Lênin advertia que a recusa em lidar com mediações institucionais, correlações de forças e compromissos táticos não conduz à superação do poder burguês, mas à sua reprodução sob novas formas. O “radicalismo verbal”, ao negar a complexidade da realidade social, transforma-se em álibi psicológico para a inação. Não se trata de erro meramente teórico, mas de uma patologia prática: ao rejeitar a política real em nome de uma política imaginária, o militante “ultra-radical” abdica de disputar poder e entrega os espaços ao adversário. Max Weber, a partir de uma matriz completamente distinta, já apontava o mesmo risco ao contrapor a ética da convicção à ética da responsabilidade. A primeira, quando isolada, produz a confortável sensação subjetiva de estar “do lado certo da história”; a segunda exige avaliar consequências, custos e efeitos colaterais. A esquerda brasileira contemporânea, em larga medida, escolheu a primeira — e paga, há mais de uma década, o preço da segunda.
Do “Cansei” ao “Fora Todos”: a genealogia do vazio
Muito antes das Jornadas de Junho de 2013, o terreno já vinha sendo preparado. O movimento “Cansei”, ainda que oriundo de setores médios e conservadores, inaugurou uma retórica profundamente despolitizante: o cansaço da política enquanto tal. Ao invés de enfrentá-la criticamente, parte da esquerda acabou assimilando essa linguagem, acreditando ingenuamente que slogans negativos poderiam servir como plataforma emancipatória. O grito de “Fora Todos”, em 2013, foi a cristalização desse equívoco. Ao apagar as clivagens de classe, ideologia e projeto histórico, a consigna transformou-se num discurso funcionalmente idêntico ao da direita antipolítica. Como advertia Hannah Arendt, o vazio político nunca permanece vazio: ele é sempre preenchido por forças mais organizadas, mais disciplinadas e menos constrangidas por escrúpulos normativos. Foi exatamente isso que ocorreu. A extrema-direita compreendeu, com notável rapidez, que o ressentimento difuso e a hostilidade à política poderiam ser canalizados para uma liderança personalista, autoritária e moralmente simplificada. Bolsonaro não emergiu apesar do “Fora Todos”, mas através dele.
“Sem Anistia”: moralismo punitivo e impotência estratégica
O lema “Sem Anistia” repete, em chave penal, o mesmo erro estrutural. Ele parte de uma compreensão moral da política — há culpados absolutos e inocentes absolutos — e ignora o caráter necessariamente estratégico das lutas sociais. Em vez de perguntar como derrotar politicamente o bolsonarismo, pergunta-se apenas como puni-lo. Trata-se de uma inversão fatal. Carl Schmitt, apesar de suas posições reacionárias, foi perspicaz ao observar que o moralismo extremo na política tende a absolutizar o inimigo, tornando-o indestrutível. Um inimigo demonizado não pode ser derrotado politicamente; apenas eliminado — o que raramente ocorre sem produzir mártires. Hans Morgenthau, em chave liberal-realista, chamou isso de “pensamento demonológico”: a redução de processos históricos complexos a um único vilão cuja eliminação supostamente restauraria a ordem perdida. A esquerda brasileira, ao apostar no punitivismo seletivo, incorre num duplo erro: fortalece o Estado penal — historicamente dirigido contra pobres, negros e dissidentes — e contribui para a vitimização política de seus adversários. A experiência histórica é cristalina: prisões políticas raramente encerram movimentos de massa; com frequência, os revitalizam.
A perda dos espaços e a ilusão do vácuo
Enquanto se satisfaz com performances morais nas redes sociais, a esquerda perdeu — de forma continuada — os espaços reais de sociabilidade e organização. As ruas tornaram-se hostis ou esporádicas; os sindicatos envelheceram e se burocratizaram; as igrejas, especialmente nas periferias, foram hegemonizadas por teologias conservadoras; os movimentos sociais, quando não cooptados, foram esvaziados de capilaridade popular. Antonio Gramsci jamais se cansou de advertir: hegemonia não se constrói por decretos nem por hashtags, mas pela ocupação persistente da sociedade civil. Onde a esquerda se ausenta, a direita se instala. Não há vácuo no poder — apenas ausência de disputa. Pierre Bourdieu acrescentaria que o abandono desses espaços implica também a perda do capital simbólico necessário para falar em nome do povo. Sem presença concreta, a linguagem política torna-se autorreferencial, compreensível apenas a pequenos círculos militantes. A extrema-direita, ao contrário, fala a língua do cotidiano, ainda que para difundir medo, ressentimento e falsas soluções.
A repetição como sintoma de derrota
As “respostas-reflexo” — slogans, palavras de ordem, campanhas morais — são repetidas exaustivamente porque substituem a elaboração estratégica. Como observava Rosa Luxemburgo, movimentos que temem a complexidade tendem a refugiar-se na repetição ritualística de fórmulas consagradas. O problema é que o mundo muda, enquanto o discurso permanece imóvel. Assim, a esquerda brasileira passou a confundir coerência com imobilismo, radicalidade com rigidez, princípio com dogma. O resultado é paradoxal: quanto mais “radical” se proclama, mais conservadora se torna em seus efeitos objetivos.
Conclusão: responsabilidade histórica e maturidade política
Lênin jamais defendeu a renúncia aos princípios; defendeu, isso sim, a inteligência política necessária para realizá-los. A incapacidade de distinguir entre gesto simbólico e ação transformadora tem custado caro à esquerda brasileira — e continuará custando enquanto persistir o conforto infantil de slogans moralmente satisfatórios e politicamente estéreis. A extrema-direita cresce não apenas por seus méritos organizativos, mas também pelos erros reiterados de seus adversários. Ao agir de forma imatura, a pseudo-esquerda não apenas falha em contê-la: atua como seu combustível involuntário. Retomar a política exige abandonar a fantasia da pureza, enfrentar a realidade sem anestesia moral e reconstruir, pacientemente, os instrumentos coletivos de ação. Como lembrava Weber, “quem busca a salvação da alma não deve fazê-lo pela política”. A política exige coragem — mas, sobretudo, exige responsabilidade.
Vladimir de Mattos















