{"id":45492,"date":"2021-03-30T22:50:46","date_gmt":"2021-03-30T22:50:46","guid":{"rendered":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/?p=45492"},"modified":"2021-03-30T22:50:46","modified_gmt":"2021-03-30T22:50:46","slug":"ditadura-militar-21-anos-de-atraso-por-vladimir-de-mattos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/ditadura-militar-21-anos-de-atraso-por-vladimir-de-mattos\/","title":{"rendered":"DITADURA MILITAR: 21 anos de atraso (por Vladimir de Mattos)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DITADURA MILITAR: 21 ANOS DE ATRASO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito se fala sobre as motiva\u00e7\u00f5es para o Golpe de 64 no Brasil, suas pretensas raz\u00f5es e at\u00e9 mesmo tentam justificar a sua necessidade, a censura, a tortura e o assassinato de seus opositores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, superados esses pontos pol\u00eamicos, \u00e9 de se observar que pouco se explora outros temas ligados \u00e0 ditadura militar brasileira, especialmente os que se referem \u00e0 economia, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a p\u00fablica, qualidade de vida e corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 justamente sobre esses temas que o presente artigo se prop\u00f5e a discutir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ECONOMIA:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maior recess\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira (empatada com a recente) ocorreu de 1981 a 1983, sendo que a crise dos anos 80 foi consequ\u00eancia direta da pujan\u00e7a irrespons\u00e1vel dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os governos M\u00e9dici (1969-1974) e Geisel (1974-1979) contra\u00edram uma d\u00edvida externa enorme para facilitar o crescimento acelerado e, na tentativa de pag\u00e1-la, o governo Figueiredo (1979-1985) travou a economia, sendo que essa forte contra\u00e7\u00e3o foi respons\u00e1vel pela forte queda das importa\u00e7\u00f5es e eleva\u00e7\u00e3o do influxo de d\u00f3lares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A d\u00edvida externa, que em 1964 era de US$ 3,3 bilh\u00f5es, passou a ser de US$ 102,2 bilh\u00f5es em 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do esfor\u00e7o, o Brasil acabou dando calote e, caindo no colo do FMI, e, para piorar, a crise acelerou a infla\u00e7\u00e3o, batendo em 235% (IGP) no ano em que Figueiredo deixou a presid\u00eancia e o Brasil de joelhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EDUCA\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O forte decl\u00ednio da educa\u00e7\u00e3o no Brasil durante a ditadura militar se deu, em grande parte, em raz\u00e3o dos acordos MEC\/USAID (Ag\u00eancia dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), que, ao inv\u00e9s de problematizarem a educa\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis de ensino, visando explicitar as verdadeiras necessidades da popula\u00e7\u00e3o, preferiram apenas fortalecer a elitiza\u00e7\u00e3o do ensino, que h\u00e1 muitos anos vinha se perpetuando na hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ano de 1965, o ent\u00e3o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o Raymundo Moniz de Arag\u00e3o entregou a responsabilidade de \u201creformular\u201d a estrutura da universidade brasileira a um grupo de especialistas norte-americanos. A partir da\u00ed, segue-se uma sucess\u00e3o de acordos entre o MEC e a USAID por interm\u00e9dio da AID (Ag\u00eancia para o Desenvolvimento Internacional) realizados de forma sigilosa, j\u00e1 que a popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 tomou conhecimento dos acordos em 1966.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se que a introdu\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia tecnicista no Brasil em meio \u00e0 ditadura militar deteriorou o sistema educacional como um todo e \u201cprejudicou, sobretudo as escolas p\u00fablicas, uma vez que nas boas escolas particulares essas exig\u00eancias eram contornadas.\u201d (ARANHA, 2006, p. 315).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e1rea de alfabetiza\u00e7\u00e3o, a grande aposta era o Mobral (Movimento Brasileiro para Alfabetiza\u00e7\u00e3o), uma resposta do regime militar ao m\u00e9todo elaborado pelo educador Paulo Freire, que ajudou a erradicar o analfabetismo no mundo na mesma \u00e9poca em que foi considerado &#8220;subversivo&#8221; pelo governo e exilado. Segundo o estudo \u201cMapa do Analfabetismo no Brasil\u201d, do Inep\u00a0(Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, o Mobral foi um &#8220;retumbante fracasso.&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SA\u00daDE:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a sa\u00fade p\u00fablica hoje est\u00e1 longe do ideal, ela ainda era mais restrita nos idos da ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O INAMPS (Instituto Nacional de Assist\u00eancia M\u00e9dica da Previd\u00eancia Social) era respons\u00e1vel pelo atendimento com seus hospitais, mas era exclusivo aos trabalhadores formais.\u00a0Somente ap\u00f3s 1988 \u00e9 que foi adotado o SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), que hoje atende a quase toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1976, quase 98% das interna\u00e7\u00f5es eram feitas em hospitais privados. Al\u00e9m disso, o modelo hospitalar adotado fez com a que a assist\u00eancia prim\u00e1ria fosse relegada a um segundo plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existiam planos de sa\u00fade, e o saneamento b\u00e1sico chegava a poucas localidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As doen\u00e7as infectocontagiosas, como tuberculose, eram fonte de constante preocupa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Segundo estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edsticas), &#8220;entre 1965\/1970 reduz-se significativamente a velocidade da queda [da mortalidade infantil], refletindo, por certo, a crise social econ\u00f4mica vivenciada pelo pa\u00eds&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, a sa\u00fade p\u00fablica foi um dos pontos mais negativos durante a \u00e9poca da ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SEGURAN\u00c7A P\u00daBLICA E VIOL\u00caNCIA:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dados nos dizem que o Brasil ficou mais violento durante a ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo artigo publicado pela Revista Brasileira de Epidemiologia, a taxa de homic\u00eddios na cidade de S\u00e3o Paulo aumentou de 6 por 100 mil em 1960 para 11 em 1970, 19 em 1980 e 36 em 1985 (hoje ela \u00e9 de 10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, no que toca ao crime de homic\u00eddio, S\u00e3o Paulo \u00e9 mais segura atualmente do que nos anos da ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O crescimento dos homic\u00eddios no Rio de Janeiro foi ainda mais r\u00e1pido e, de acordo com pesquisa da Fiocruz, bateu 41 por 100 mil em 1985, patamar acima do atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os governos militares foram respons\u00e1veis indiretos pela viol\u00eancia. O golpe de 1964 suspendeu um programa de reforma agr\u00e1ria que poderia ter minorado o forte \u00eaxodo rural do per\u00edodo, visto que o surto de criminalidade dos anos 70 e 80 ocorreu em cidades inchadas, mal planejadas e desiguais \u2013 um legado da ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>QUALIDADE DE VIDA: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a ditadura militar brasileira, o \u201cbolo\u201d cresceu, mas n\u00e3o foi dividido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, foi injustamente dividido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A distribui\u00e7\u00e3o de renda entre os estratos sociais ficou mais polarizada durante o regime: os 10% dos mais ricos que tinham 38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. J\u00e1 os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, deca\u00edram para 12% duas d\u00e9cadas depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 1968 e 1973, o Brasil cresceu acima de 10% ao ano. Mas, em contrapartida, o sal\u00e1rio m\u00ednimo &#8211;que vinha recuperando o poder de compra nos anos 1960&#8211; perdeu com o golpe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, em pleno &#8216;milagre&#8217;, o poder de compra dele representava a metade do que era em 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em valores corrigidos at\u00e9 2015 (IGP-DI\/FGV), o sal\u00e1rio-m\u00ednimo que em 1964 equivalia a R$ 1.358,25, em 1984 valia o equivalente \u00e0 metade, ou seja, R$ 759,18.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A infla\u00e7\u00e3o, quem em 1964 era de R$ 85,6%, passou a 178,6% em 1984.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CORRUP\u00c7\u00c3O:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regime militar foi, de longe, o ber\u00e7o da corrup\u00e7\u00e3o entre grandes empreiteiras e agentes p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forte vincula\u00e7\u00e3o da Odebrecht com a Petrobras, por exemplo, vem da d\u00e9cada de 1950, mas se consolidou no per\u00edodo da ditadura.\u00a0O crescimento da Odebrecht, que passou de 19\u00aa empresa de maior faturamento em 1971 para a 3\u00aa coloca\u00e7\u00e3o, em 1973, foi impulsionado nesses anos do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d. O mesmo ocorreu com outras empreiteiras, como Andrade e Gutierrez, Mendes J\u00fanior e Camargo Corr\u00eaa. A forte vincula\u00e7\u00e3o com o Estado, que as encarregava de tocar as grandes obras de infraestrutura da \u00e9poca, possibilitou essa ascens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 17 de abril de 1979, Norberto Odebrecht sentou-se num banco de CPI, no Senado, para se defender de den\u00fancias de desvio de verbas, superfaturamento e favorecimento nas obras do complexo nuclear de Angra \u2014um neg\u00f3cio iniciado em 1972 sob o governo do general Em\u00edlio M\u00e9dici.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por concorr\u00eancia, a Odebrecht havia sido contratada em 1972 para construir a usina nuclear de Angra I. Quatro anos depois, em 1976, o governo contratou a mesma Odebrecht para erguer as usinas de Angra II e Angra III, dessa vez sem o inconveniente da licita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 1972 a 1974, a Construtora Norberto Odebrecht n\u00e3o se desincumbia satisfatoriamente de sua tarefa. Documentos oficiais atestavam &#8220;incapacidade t\u00e9cnica&#8221; e &#8220;dificuldades financeiras&#8221; da empreiteira. O problema financeiro foi resolvido com a antecipa\u00e7\u00e3o de pagamentos \u00e0 construtora e a debilidade t\u00e9cnica foi contornada com a troca do comando da equipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A opera\u00e7\u00e3o resultou em atrasos no cronograma da obra, o que n\u00e3o impediram o governo militar de prover \u00e0 Odebrecht dinheiro extra e antecipado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O superfaturamento das usinas nucleares de Angra \u00e9 escandaloso: inicialmente or\u00e7adas em algumas centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares americanos, o pais j\u00e1 gastou, em tr\u00eas d\u00e9cadas, mais de US$ 45 bilh\u00f5es e s\u00f3 concluiu duas centrais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ponte Rio-Niter\u00f3i \u00e9 outro exemplo de corrup\u00e7\u00e3o escandalosa da ditadura militar: o custo da ponte, ao final da obra, ficou em torno de Crz$ 800 milh\u00f5es, quase quatro vezes mais do que o valor do primeiro contrato. A escalada dos custos colou em Andreazza suspeitas de favorecer empreiteiras, fama que jamais o abandonaria. Nada, por\u00e9m, foi capaz de abalar seu prest\u00edgio junto ao governo militar. Coube a ele, na pomposa inaugura\u00e7\u00e3o do dia 4 de mar\u00e7o de 1974, os privil\u00e9gios de atravessar a obra no Rolls-Royce presidencial, ao lado de M\u00e9dici, e de fazer o \u00fanico discurso da solenidade, no qual chamou a data de \u201cdivisor entre o Brasil adolescente e o Brasil amadurecido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sacramentou-se naquele momento o casamento entre corruptos e corruptores no Brasil \u2013 leia-se empreiteiras e ditadores militares \u2013, que, infelizmente, parece ter-se perpetuado at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ditadura militar criou uma tal de \u201cComiss\u00e3o Geral de Investiga\u00e7\u00f5es\u201d (CGI), um organismo elaborado ap\u00f3s o AI-5 com o objetivo \u201coficial\u201d de combater a corrup\u00e7\u00e3o. Foi a respons\u00e1vel por cerca de 3 mil processos, mas seus procedimentos eram secretos. Al\u00e9m disso, se houvesse suspeitas contra militares, seus casos n\u00e3o iam para a CGI \u2013 eram remetidos a comiss\u00f5es de investiga\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias das For\u00e7as Armadas, e n\u00e3o se tem se tem conhecimento sobre o andamento dos processos ou suas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, a corrup\u00e7\u00e3o, as negociatas e as forma\u00e7\u00f5es de quadrilhas corriam soltas e nenhum militar foi punido por isso, ao menos oficialmente. Ao contr\u00e1rio, jornalistas que ousaram investigar os casos de corrup\u00e7\u00e3o foram perseguidos, presos e at\u00e9 mesmo assassinados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afora os casos emblem\u00e1ticos acima citados, muitos outros esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o ocorreram durante a ditadura militar brasileira, a saber:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>Contrabando na Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito: A partir de 1970, dentro da 1\u00aa Companhia do 2\u00ba Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, no Rio de Janeiro, sargentos, capit\u00e3es e cabos come\u00e7aram a se relacionar com o contrabando carioca;<\/li>\n<li>A Vida Dupla do Delegado Fleury: Fleury era ligado a criminosos comuns, segundo o MP, se associando ao tr\u00e1fico e fornecendo servi\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o ao traficante Jos\u00e9 Iglesias, o \u201cJuca\u201d, na guerra de quadrilhas paulistanas;<\/li>\n<li>Governadores Bi\u00f4nicos Corruptos: Em 1970, uma avalia\u00e7\u00e3o feita pelo SNI ajudou a determinar quais seriam os governadores do Estado indicados pelo presidente M\u00e9dici (1969-1974). No Paran\u00e1, Haroldo Leon Peres foi escolhido ap\u00f3s ser elogiado pela postura favor\u00e1vel ao regime; um ano depois, foi pego extorquindo um empreiteiro em US$ 1 milh\u00e3o e obrigado a renunciar;<\/li>\n<li>O Caso Luftalla: Outro governador envolvido em den\u00fancias foi o paulista Paulo Maluf. Dois anos antes de assumir o Estado, em 1979, ele foi acusado de corrup\u00e7\u00e3o no caso conhecido como Lutfalla \u2013 empresa t\u00eaxtil de sua mulher, Sylvia, que recebeu empr\u00e9stimos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) quando estava em processo de fal\u00eancia. As den\u00fancias envolviam tamb\u00e9m o ministro do Planejamento Reis Velloso, que negou as irregularidades, e terminou sem puni\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<li>Delfim e a Camargo Correa: Delfim Netto \u2013 ministro da Fazenda durante os governos Costa e Silva (1967-1969) e M\u00e9dici, embaixador brasileiro na Fran\u00e7a no governo Geisel e ministro da Agricultura (depois Planejamento) no governo Figueiredo \u2013 sofreu algumas acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o. Na primeira delas, em 1974, foi acusado pelo pr\u00f3prio Figueiredo (ainda chefe do SNI), em conversas reservadas com Geisel e Heitor Ferreira. Delfim teria beneficiado a empreiteira Camargo Corr\u00eaa a ganhar a concorr\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de \u00c1gua Vermelha (MG). Anos depois, como embaixador, foi acusado pelo franc\u00eas Jacques de la Broissia de ter prejudicado seu banco, o Cr\u00e9dit Commercial de France, que teria se recusado a fornecer US$ 60 milh\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o da usina hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, obra tamb\u00e9m executada pela Camargo Corr\u00eaa;<\/li>\n<li>As Comiss\u00f5es da General Electric: Durante um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econ\u00f4mica) em 1976, o presidente da General Electric no Brasil, Gerald Thomas Smilley, admitiu que a empresa pagou comiss\u00e3o a alguns funcion\u00e1rios no pa\u00eds para vender locomotivas \u00e0 estatal Rede Ferrovi\u00e1ria Federal, segundo noticiou a \u201cFolha de S.Paulo\u201d na \u00e9poca. Em 1969, a Junta Militar que sucedeu a Costa e Silva e precedeu M\u00e9dici havia aprovado um decreto-lei que destinava \u201cfundos especiais\u201d para a compra de 180 locomotivas da GE. Na \u00e9poca, um dos diretores da empresa no Brasil na \u00e9poca era Alcio Costa e Silva, irm\u00e3o do ex-presidente, morto naquele mesmo ano de 1969. Na investiga\u00e7\u00e3o de 1976, o Cade apurava a forma\u00e7\u00e3o de um cartel de multinacionais no Brasil e o pagamento de subornos e comiss\u00f5es a autoridades para a obten\u00e7\u00e3o de contratos;<\/li>\n<li>Newton Cruz, O Caso Capemi e o Dossi\u00ea Baumgarten: O jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador do SNI, foi assassinado em 1982, pouco depois de publicar um dossi\u00ea acusando o general Newton Cruz de planejar sua morte \u2013 segundo o ex-delegado do Dops Cl\u00e1udio Guerra, em declara\u00e7\u00e3o de 2012, a ordem partiu do pr\u00f3prio SNI. A morte do jornalista teria liga\u00e7\u00e3o com seu conhecimento sobre as den\u00fancias envolvendo Cruz e outros agentes do Servi\u00e7o no esc\u00e2ndalo da Agropecu\u00e1ria Capemi, empresa dirigida por militares, contratada para comercializar a madeira da regi\u00e3o do futuro lago de Tucuru\u00ed. Pelo menos US$ 10 milh\u00f5es teriam sido desviados para beneficiar agentes do SNI no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980;<\/li>\n<li>O Caso Coroa-Brastel: Delfim Netto sofreria uma terceira acusa\u00e7\u00e3o direta de corrup\u00e7\u00e3o, dessa vez como ministro do Planejamento, ao lado de Ernane Galv\u00eaas, ministro da Fazenda, durante o governo Figueiredo. Segundo a acusa\u00e7\u00e3o apresentada em 1985 pelo procurador-geral da Rep\u00fablica Jos\u00e9 Paulo Sep\u00falveda Pertence, os dois teriam desviado irregularmente recursos p\u00fablicos por meio de um empr\u00e9stimo da Caixa Econ\u00f4mica Federal ao empres\u00e1rio Assis Paim, dono do grupo Coroa-Brastel, em 1981. Galv\u00eaas foi absolvido em 1994, e a acusa\u00e7\u00e3o contra Delfim \u2013 que disse na \u00e9poca que a den\u00fancia era de &#8220;iniciativa pol\u00edtica&#8221; \u2013 n\u00e3o chegou a ser examinada;<\/li>\n<li>O Grupo Delfin: Den\u00fancia feita pela \u201cFolha de S.Paulo\u201d de dezembro de 1982 apontou que o Grupo Delfin, empresa privada de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio, foi beneficiado pelo governo por meio do Banco Nacional da Habita\u00e7\u00e3o ao obter Cr$ 70 bilh\u00f5es para abater parte dos Cr$ 82 bilh\u00f5es devidos ao banco. Segundo a reportagem, o valor total dos terrenos usados para a quita\u00e7\u00e3o era de apenas Cr$ 9 bilh\u00f5es. Assustados com a not\u00edcia, clientes do grupo retiraram seus fundos, o que levou a empresa \u00e0 fal\u00eancia pouco depois. A den\u00fancia envolveu os nomes dos ministros M\u00e1rio Andreazza (Interior), Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galv\u00eaas (Fazenda), que chegaram a ser acusados judicialmente por causa do acordo);<\/li>\n<li>Obras Fara\u00f4nicas: V\u00e1rias outras obras fara\u00f4nicas constru\u00eddas durante o per\u00edodo da ditadura militar tamb\u00e9m foram marcadas por esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e morte de milhares de \u00edndios, a exemplo das hidrel\u00e9tricas Itaipu Binacional, Tucuru\u00ed, Ilha Solteira e Jupi\u00e1, al\u00e9m da Transamaz\u00f4nica, Perimetral Norte, rede de metr\u00f4 nas grandes capitais, etc.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, se hoje, em pleno ano de 2021, com TODOS os \u00f3rg\u00e3os de controle existentes (Minist\u00e9rio P\u00fablico de Contas, Tribunal de Contas da Uni\u00e3o, Tribunais de Contas Estaduais, Tribunais de Contas Municipais, Minist\u00e9rios P\u00fablicos Estaduais, Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, Controladorias da Uni\u00e3o, dos Estados e dos Munic\u00edpios, ONGs de controle dos gastos p\u00fablicos, sociedade civil organizada, partidos pol\u00edticos e cidad\u00e3os em geral, etc.), a corrup\u00e7\u00e3o grassa pelo pa\u00eds, imagine o eleitor a farra que era naquela \u00e9poca!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente \u2013 e infelizmente \u2013, \u00e9 triste e doloroso concluir que, diante das informa\u00e7\u00f5es trazidas a lume, \u00e9 certo que muitos dos atuais problemas end\u00eamicos que assolam o Brasil t\u00eam ra\u00edzes profundas nos 21 anos da ditadura militar que tanto nos atrasou como na\u00e7\u00e3o perante o resto do mundo civilizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fontes: <a href=\"https:\/\/meuartigo.brasilescola.uol.com.br\/educacao\/as-mazelas-educacao-brasileira-heranca-regime-milita.htm\">https:\/\/meuartigo.brasilescola.uol.com.br\/educacao\/as-mazelas-educacao-brasileira-heranca-regime-milita.htm<\/a>; <a href=\"https:\/\/guiadoestudante.abril.com.br\/blog\/atualidades-vestibular\/o-legado-de-problemas-da-ditadura-militar-no-brasil\/\">https:\/\/guiadoestudante.abril.com.br\/blog\/atualidades-vestibular\/o-legado-de-problemas-da-ditadura-militar-no-brasil\/<\/a>; <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2014\/03\/22\/10-motivos-para-nao-ter-saudades-da-ditadura.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2014\/03\/22\/10-motivos-para-nao-ter-saudades-da-ditadura.htm<\/a>; <a href=\"https:\/\/economia.estadao.com.br\/blogs\/mosaico-de-economia\/o-regime-militar-nao-foi-bom-para-o-brasil\/\">https:\/\/economia.estadao.com.br\/blogs\/mosaico-de-economia\/o-regime-militar-nao-foi-bom-para-o-brasil\/<\/a>; \u00a0<a href=\"https:\/\/josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br\/2017\/04\/22\/corrupcao-ronda-a-odebrecht-desde-a-ditadura\/\">https:\/\/josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br\/2017\/04\/22\/corrupcao-ronda-a-odebrecht-desde-a-ditadura\/<\/a>; <a href=\"https:\/\/infograficos.oglobo.globo.com\/brasil\/ponte-rio-niteroi.html?mobi=1\">https:\/\/infograficos.oglobo.globo.com\/brasil\/ponte-rio-niteroi.html?mobi=1<\/a>; <a href=\"https:\/\/historiahoje.com\/a-corrupcao-nos-governos-militares\/\">https:\/\/historiahoje.com\/a-corrupcao-nos-governos-militares\/<\/a>; <a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/historia\/ditadura-militar-enriqueceu-grandes-empreiteiras\/\">https:\/\/super.abril.com.br\/historia\/ditadura-militar-enriqueceu-grandes-empreiteiras\/<\/a>; <a href=\"https:\/\/acervo.oglobo.globo.com\/em-destaque\/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174\">https:\/\/acervo.oglobo.globo.com\/em-destaque\/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174<\/a>; <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2015\/04\/01\/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm\">https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2015\/04\/01\/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm<\/a>; <a href=\"https:\/\/acervo.oglobo.globo.com\/em-destaque\/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174#ixzz6qavNMtLU\">https:\/\/acervo.oglobo.globo.com\/em-destaque\/cercada-de-polemica-usina-nuclear-angra-1-construida-na-ditadura-militar-16997174#ixzz6qavNMtLU<\/a>; <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-38337544\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-38337544<\/a>;<br \/>\n<a href=\"mailto:vladimirdemattos@hotmail.com\">vladimirdemattos@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DITADURA MILITAR: 21 ANOS DE ATRASO Muito se fala sobre as motiva\u00e7\u00f5es para o Golpe de 64 no Brasil, suas pretensas raz\u00f5es e at\u00e9 mesmo tentam justificar a sua necessidade, a censura, a tortura e o assassinato de seus opositores. No entanto, superados esses pontos pol\u00eamicos, \u00e9 de se observar que pouco se explora outros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":45493,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[175],"tags":[],"class_list":["post-45492","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45492"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45492\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}