{"id":39461,"date":"2020-11-29T15:11:10","date_gmt":"2020-11-29T15:11:10","guid":{"rendered":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/?p=39461"},"modified":"2020-11-29T15:11:10","modified_gmt":"2020-11-29T15:11:10","slug":"sentimento-de-cadaver-insepulto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/sentimento-de-cadaver-insepulto\/","title":{"rendered":"Sentimento de cad\u00e1ver insepulto"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sentimento de cad\u00e1ver insepulto<\/strong><\/p>\n<p>Andr\u00e9 Lu\u00eds Luengo<\/p>\n<p>Temos visto in\u00fameras cerimonias f\u00fanebres nos \u00faltimos dias, marcadas pela<br \/>\n\u00ednfima presen\u00e7a de pessoas, restritas apenas a alguns parentes, muitos deles<br \/>\nsequer sem tempo h\u00e1bil para comparecer ao ritual de despedida. Isto vai de<br \/>\nencontro as nossas tradi\u00e7\u00f5es para o sepultamento, gerando um desconforto e o<br \/>\nsentimento de que o cad\u00e1ver ficou insepulto. Mas, tais exig\u00eancias atendem as<br \/>\ndetermina\u00e7\u00f5es normativas criadas para regular a realidade gerada pela<br \/>\npandemia da COVID-19 e que os \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade p\u00fablica tiveram que positivar<br \/>\nneste momento de crise (as orienta\u00e7\u00f5es p\u00f3s-\u00f3bito de pacientes com infec\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuspeita ou confirmada pelo novo coronavirus, bem como as recomenda\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre o manejo de corpos no contexto do novo coronav\u00edrus COVID-19 &#8211;<br \/>\npublicada em 23\/03\/2020). Isso nos angustia pelo conflito entre as nossas<br \/>\ntradi\u00e7\u00f5es, muitas delas religiosas e o poder humano, positivado pelo Estado. Na<br \/>\nliteratura j\u00e1 houve uma abordagem a qual pe\u00e7o v\u00eania para rapidamente lhes<br \/>\ncomentar. Na sua obra \u201cAnt\u00edgone\u201d o autor S\u00f3focles, demonstra a desobedi\u00eancia<br \/>\ncivil contra algo considerado como injusto. Na trag\u00e9dia de \u201cAnt\u00edgona\u201d (filha de<br \/>\n\u00c9dipo) S\u00f3focles evidencia o conflito entre as tradi\u00e7\u00f5es religiosas e o poder<br \/>\nhumano. Os fatos acontecem com a morte de dois irm\u00e3os (Et\u00e9ocles e Polinice)<br \/>\nfilhos de \u00c9dipo. Os dois irm\u00e3os lutaram pelo poder e chegaram a um acordo de<br \/>\nrevezamento no comando a cada ano. Por\u00e9m, Et\u00e9ocles, o primeiro a governar,<br \/>\nquando terminou o seu mandato, n\u00e3o quis ceder o lugar ao irm\u00e3o Polinice. Este,<br \/>\nrevoltado vai para a cidade vizinha e rival da grande Tebas. Re\u00fane um ex\u00e9rcito<br \/>\naliado e enfrenta o irm\u00e3o buscando o trono. No final os dois se matam,<br \/>\nassumindo o poder o tio Creonte, irm\u00e3o de Jocasta, esposa de \u00c9dipo. As duas<br \/>\nirm\u00e3s eram Ant\u00edgona e Ism\u00eania. Creonte estabeleceu que o corpo de Polinice<br \/>\nn\u00e3o receberia as honrarias tradicionais dos funerais, pois este tinha lutado contra<br \/>\na p\u00e1tria, determinando a pena de morte a quem desobedecesse \u00e0s suas ordens.<br \/>\nAnt\u00edgona entendendo que a decis\u00e3o do Tio Creonte (rei) era arbitr\u00e1ria, pois<br \/>\ndesrespeitava as leis naturais mais antigas ou divinas (diante da cren\u00e7a de que<br \/>\nos rituais de passagem eram importantes para que a alma n\u00e3o ficasse vagando<br \/>\neternamente sem destino) preferiu correr o risco da morte e assim decidiu por<br \/>\nenterrar o seu irm\u00e3o despojado. Ao ser descoberta que Ant\u00edgona havia tentado<br \/>\nenterrar o seu irm\u00e3o Polinice (ela fez apenas as honras f\u00fanebres, ao que consta<br \/>\nn\u00e3o chegando a sepult\u00e1-lo), coube a ordem a Hemon, filho do rei Creonte e que<br \/>\nera o noivo dela (Ant\u00edgona), para prend\u00ea-la e execut\u00e1-la em nome da lei do<br \/>\nEstado. Segundo narrado ela se matou (enforcada na cela) ou foi morta por<br \/>\nHemon, que depois se mata, mas n\u00e3o sem antes tentar golpear o seu pr\u00f3prio<br \/>\npai. A m\u00e3e de Hemon ao saber disso, tamb\u00e9m se mata. Deste modo, na narra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndessa trag\u00e9dia grega estava em conflito as leis divinas, encarnadas na religiosa<br \/>\n1 Delegado de Pol\u00edcia. Professor da Academia de Pol\u00edcia. Professor Universit\u00e1rio. Contato:<br \/>\nluengo.garra@hotmail.com<br \/>\nAnt\u00edgona e as leis humanas determinadas pelo arb\u00edtrio de Creonte. Ela tornouse uma hero\u00edna dos valores, mas que n\u00e3o gozou de pr\u00eamio nenhum, at\u00e9 porque<br \/>\nconsiderando \u00e0 \u00e9poca, ela era uma mulher, sem possibilidade de valoriza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCreonte, por sua ambi\u00e7\u00e3o e por seu despotismo, perdeu seu filho e sua esposa.<br \/>\nRetornando para os dias atuais, a pandemia do novo coronav\u00edrus ceifou muitas<br \/>\npessoas em decorr\u00eancia da COVID-19, segundo os dados do Minist\u00e9rio da<br \/>\nSa\u00fade. Nessas situa\u00e7\u00f5es, os familiares dos mortos n\u00e3o podem velar os seus<br \/>\nentes queridos. N\u00e3o podem sequer abrir o caix\u00e3o onde os corpos s\u00e3o<br \/>\nacondicionados (h\u00e1 o kit p\u00f3s-\u00f3bito para o correto acondicionamento do corpo).<br \/>\nAs orienta\u00e7\u00f5es preveem que os funerais dos pacientes confirmados ou suspeitos<br \/>\nn\u00e3o sejam realizados durante os per\u00edodos de isolamento social e quarentena. No<br \/>\ncaso da realiza\u00e7\u00e3o da cerim\u00f4nia, as funer\u00e1rias s\u00e3o orientadas a manter as urnas<br \/>\nfechadas, de modo a evitar o contato com o corpo do falecido. A cerim\u00f4nia<br \/>\ntamb\u00e9m deve ser realizada num curto espa\u00e7o de tempo (geralmente de duas<br \/>\nhoras) e em locais com ventila\u00e7\u00e3o, com no m\u00e1ximo com 10 pessoas, mantendo<br \/>\no distanciamento. O protocolo ainda recomenda que se deve evitar a<br \/>\nperman\u00eancia das pessoas que perten\u00e7am ao grupo de risco. Mas muitas das<br \/>\nvezes a aus\u00eancia de um vel\u00f3rio tradicional, pode n\u00e3o dar a certifica\u00e7\u00e3o de que a<br \/>\npessoa morreu. As experi\u00eancias das grandes trag\u00e9dias, como as de<br \/>\nBrumadinho, MG, geram essa dificuldade do luto. Isso faz com que n\u00f3s, os<br \/>\nfamiliares, os amigos, fiquemos com a angustia de que n\u00e3o demos o devido<br \/>\nvalor, o respeito aos mortos. Por\u00e9m, embora a dificuldade e o sofrimento nesse<br \/>\nluto, temos que tentar compreender que essa ordena\u00e7\u00e3o normativa foi criada<br \/>\npara esta realidade e tem os seus fins e valores. Devemos pensar sobre a<br \/>\nresponsabilidade de nossas a\u00e7\u00f5es no mundo. \u00c9 dif\u00edcil a \u00faltima despedida, sem<br \/>\na despedida e isto gera o sentimento do cad\u00e1ver insepulto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sentimento de cad\u00e1ver insepulto Andr\u00e9 Lu\u00eds Luengo Temos visto in\u00fameras cerimonias f\u00fanebres nos \u00faltimos dias, marcadas pela \u00ednfima presen\u00e7a de pessoas, restritas apenas a alguns parentes, muitos deles sequer sem tempo h\u00e1bil para comparecer ao ritual de despedida. 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