{"id":101165,"date":"2026-02-12T12:11:05","date_gmt":"2026-02-12T12:11:05","guid":{"rendered":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/?p=101165"},"modified":"2026-02-12T12:11:05","modified_gmt":"2026-02-12T12:11:05","slug":"o-poder-dos-ratos-por-vladimir-de-mattos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/o-poder-dos-ratos-por-vladimir-de-mattos\/","title":{"rendered":"O poder dos Ratos (por Vladimir de Mattos)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O PODER DOS RATOS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 met\u00e1foras que n\u00e3o se escolhem por gosto, mas por necessidade. O poder, quando divorciado da \u00e9tica, n\u00e3o \u00e9 pal\u00e1cio: \u00e9 cloaca. N\u00e3o \u00e9 tribuna: \u00e9 sarjeta. N\u00e3o \u00e9 altar: \u00e9 esgoto. E como todo esgoto, corre subterr\u00e2neo, f\u00e9tido, viscoso, transportando detritos morais, dinheiro turvo e criaturas que prosperam na sombra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso Epstein, por exemplo, n\u00e3o foi apenas um esc\u00e2ndalo sexual de propor\u00e7\u00f5es internacionais; foi a radiografia indecorosa de um sistema que mistura celebridades, bilion\u00e1rios e pol\u00edticos como se todos compartilhassem a mesma promiscuidade estrutural. Jeffrey Epstein, o financista de passado nebuloso e fortuna opaca, n\u00e3o operava sozinho. Seu c\u00edrculo inclu\u00eda nomes gra\u00fados, fotografados, filmados, recebidos com risos e brindes na ilha que se tornou s\u00edmbolo de degrada\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as imagens amplamente divulgadas, h\u00e1 registros de Donald Trump sendo recebido em festas promovidas por Epstein \u2014 festas nas quais a presen\u00e7a de jovens, algumas menores de idade, compunha o cen\u00e1rio de esc\u00e2ndalo que mais tarde viria \u00e0 tona. Trump, como outros poderosos, negou envolvimento em il\u00edcitos. Ainda assim, a simples proximidade social com algu\u00e9m cujo imp\u00e9rio se sustentava sobre a explora\u00e7\u00e3o de vulner\u00e1veis revela algo que transcende a tipifica\u00e7\u00e3o penal: revela a naturalidade com que as elites transitam em ambientes onde a \u00e9tica \u00e9 tratada como adere\u00e7o descart\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como escreveu Juvenal, \u201cQuis custodiet ipsos custodes?\u201d \u2014 quem vigiar\u00e1 os vigilantes? Quando o poder se confraterniza com o v\u00edcio, quem se ergue para cont\u00ea-lo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a lama n\u00e3o \u00e9 menos espessa. Vieram \u00e0 tona mensagens atribu\u00eddas a Epstein nas quais ele teceria elogios a Jair Bolsonaro. O conte\u00fado, por si, pode n\u00e3o configurar crime algum; mas \u00e9 sintom\u00e1tico. O poder, em suas diversas latitudes, parece reconhecer-se mutuamente, como membros de uma mesma confraria informal. As ideologias que inflamam multid\u00f5es dissolvem-se em cordialidade quando os convivas compartilham o mesmo patamar social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O chamado \u201ccaso Master\u201d adiciona outro cap\u00edtulo \u00e0 cr\u00f4nica do esgoto. A revela\u00e7\u00e3o de que o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva recebeu Daniel Vorcaro, banqueiro ligado ao Banco Master, em encontros n\u00e3o registrados na agenda oficial, despertou questionamentos leg\u00edtimos sobre transpar\u00eancia. Reuni\u00f5es fora da agenda, quando envolvem figuras centrais do sistema financeiro, s\u00e3o sempre terreno f\u00e9rtil para suspeitas. A Rep\u00fablica exige luz; o poder, ao que parece, prefere a penumbra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As decis\u00f5es pol\u00eamicas do ministro Dias Toffoli no \u00e2mbito do mesmo caso intensificaram a sensa\u00e7\u00e3o de que as engrenagens da Justi\u00e7a e do poder pol\u00edtico frequentemente operam em sintonia dissonante com o interesse p\u00fablico. E quando se revelou que, segundo informa\u00e7\u00f5es oriundas de per\u00edcia da Pol\u00edcia Federal no celular de Vorcaro, haveria men\u00e7\u00f5es a supostos repasses financeiros envolvendo um ministro do Supremo Tribunal Federal, a met\u00e1fora do esgoto tornou-se quase literal: dinheiro, poder e suspeitas escorrendo pelo mesmo cano institucional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imprescind\u00edvel afirmar: acusa\u00e7\u00f5es devem ser apuradas com rigor, e ningu\u00e9m deve ser condenado pela turba ou pela ret\u00f3rica. Contudo, o padr\u00e3o recorrente de proximidades impr\u00f3prias, encontros opacos e decis\u00f5es controversas corr\u00f3i a confian\u00e7a p\u00fablica. O esgoto n\u00e3o \u00e9 apenas o crime comprovado; \u00e9 tamb\u00e9m o odor persistente da promiscuidade entre interesses privados e fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ambiente, o povo \u2014 a massa \u2014 desempenha papel paradoxal. Manipulada por narrativas bin\u00e1rias, escolhe um lado como quem escolhe um time de futebol. Briga com irm\u00e3os, rompe amizades, desfaz la\u00e7os familiares para defender l\u00edderes que jamais saber\u00e3o de sua exist\u00eancia. A paix\u00e3o pol\u00edtica substitui a raz\u00e3o; a lealdade tribal suplanta o esp\u00edrito cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, nos sal\u00f5es refrigerados do poder, advers\u00e1rios de palanque conversam com civilidade, trocam confid\u00eancias e, n\u00e3o raramente, protegem-se mutuamente. O antagonismo p\u00fablico contrasta com a conviv\u00eancia privada. As fortunas familiares crescem \u201ccoincidentemente\u201d ap\u00f3s o ingresso na vida p\u00fablica. Filhos tornam-se empres\u00e1rios de sucesso mete\u00f3rico; parentes ascendem socialmente com velocidade incomum. Tudo, ao menos formalmente, dentro da legalidade \u2014 mas sempre \u00e0 sombra de uma coincid\u00eancia estatisticamente desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A polariza\u00e7\u00e3o burra \u2014 permitam-me a franqueza \u2014 \u00e9 o adubo desse esgoto. Ela entorpece o discernimento coletivo. Transforma corrup\u00e7\u00e3o em detalhe quando praticada pelo \u201cmeu lado\u201d e em esc\u00e2ndalo apocal\u00edptico quando protagonizada pelo \u201coutro\u201d. Cria uma \u00e9tica el\u00e1stica, mold\u00e1vel conforme a conveni\u00eancia ideol\u00f3gica. E assim o pa\u00eds permanece dividido, paralisado, consumindo energia em guerras fratricidas enquanto as estruturas profundas do poder seguem intocadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contraste-se esse cen\u00e1rio com a trajet\u00f3ria de na\u00e7\u00f5es que, independentemente de cr\u00edticas leg\u00edtimas a seus regimes pol\u00edticos, souberam priorizar projeto nacional acima de paix\u00f5es intestinas. A China, por exemplo, consolidou-se como pot\u00eancia em ascens\u00e3o social, pol\u00edtica, militar e econ\u00f4mica n\u00e3o por meio de debates hist\u00e9ricos televisivos, mas por planejamento estrat\u00e9gico de longo prazo, investimento maci\u00e7o em educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e t\u00e9cnica, e disciplina institucional. Pode-se divergir de seu modelo pol\u00edtico; \u00e9 ineg\u00e1vel, contudo, que a aus\u00eancia de polariza\u00e7\u00e3o autof\u00e1gica permitiu foco no desenvolvimento estrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil, ao contr\u00e1rio, parece aprisionado em um ciclo vicioso: esc\u00e2ndalo, indigna\u00e7\u00e3o seletiva, esquecimento conveniente, reelei\u00e7\u00e3o de protagonistas, novo esc\u00e2ndalo. Como em um sistema de esgoto mal projetado, os detritos retornam \u00e0 superf\u00edcie com assustadora regularidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sa\u00edda n\u00e3o vir\u00e1 de messias pol\u00edticos. A hist\u00f3ria \u00e9 pr\u00f3diga em demonstrar que l\u00edderes carism\u00e1ticos raramente purificam estruturas contaminadas; muitas vezes apenas aprendem a navegar nelas com maior habilidade. A verdadeira transforma\u00e7\u00e3o exige algo menos espetacular e mais \u00e1rduo: educa\u00e7\u00e3o de base robusta, universal e de qualidade. Educa\u00e7\u00e3o que ensine l\u00f3gica, interpreta\u00e7\u00e3o de texto, hist\u00f3ria, \u00e9tica p\u00fablica e responsabilidade c\u00edvica. Educa\u00e7\u00e3o que forme cidad\u00e3os, n\u00e3o torcedores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem isso, continuaremos a assistir ao espet\u00e1culo grotesco de massas enfurecidas defendendo seus respectivos \u00eddolos enquanto o poder, em suas m\u00faltiplas cores partid\u00e1rias, trafega pelo mesmo encanamento subterr\u00e2neo. Continuaremos a respirar o odor do esgoto institucional e a fingir que se trata de perfume ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como advertiu Montesquieu, \u201cTodo homem que tem poder \u00e9 levado a abusar dele; vai at\u00e9 encontrar limites.\u201d O problema do Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas o abuso; \u00e9 a aus\u00eancia de limites efetivos. E enquanto esses limites n\u00e3o forem constru\u00eddos por uma cidadania instru\u00edda, cr\u00edtica e vigilante, o esgoto continuar\u00e1 a correr \u2014 invis\u00edvel para uns, insuport\u00e1vel para outros, mas sempre presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poder, quando n\u00e3o fiscalizado, apodrece. E o que apodrece exala. Resta saber se teremos coragem de encarar o odor, limpar as tubula\u00e7\u00f5es e reconstruir a casa \u2014 ou se preferiremos continuar discutindo qual lado da sarjeta \u00e9 menos sujo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PODER DOS RATOS H\u00e1 met\u00e1foras que n\u00e3o se escolhem por gosto, mas por necessidade. O poder, quando divorciado da \u00e9tica, n\u00e3o \u00e9 pal\u00e1cio: \u00e9 cloaca. N\u00e3o \u00e9 tribuna: \u00e9 sarjeta. N\u00e3o \u00e9 altar: \u00e9 esgoto. E como todo esgoto, corre subterr\u00e2neo, f\u00e9tido, viscoso, transportando detritos morais, dinheiro turvo e criaturas que prosperam na sombra. 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