{"id":101087,"date":"2026-02-06T16:13:41","date_gmt":"2026-02-06T16:13:41","guid":{"rendered":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/?p=101087"},"modified":"2026-02-06T16:13:41","modified_gmt":"2026-02-06T16:13:41","slug":"sem-anistia-por-vladimir-de-mattos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jorgezanoni.com.br\/2019\/sem-anistia-por-vladimir-de-mattos\/","title":{"rendered":"Sem anistia!  (por Vladimir de Mattos)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Sem anistia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra de ordem \u201cSem Anistia\u201d, repetida hoje quase como um mantra moralizante por amplos setores da chamada esquerda brasileira, tornou-se um sintoma eloquente de um problema mais profundo: a substitui\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica concreta por gestos simb\u00f3licos de autopurifica\u00e7\u00e3o, da estrat\u00e9gia por slogans, da organiza\u00e7\u00e3o por catarse. Longe de expressar radicalidade real, tal postura revela \u2014 para usar a cl\u00e1ssica met\u00e1fora de L\u00eanin \u2014 uma forma recorrente de infantilismo pol\u00edtico, cujos efeitos pr\u00e1ticos t\u00eam sido invariavelmente regressivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ilus\u00e3o da pureza e a recusa da pol\u00edtica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde Esquerdismo, doen\u00e7a infantil do comunismo, L\u00eanin advertia que a recusa em lidar com media\u00e7\u00f5es institucionais, correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as e compromissos t\u00e1ticos n\u00e3o conduz \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do poder burgu\u00eas, mas \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o sob novas formas. O \u201cradicalismo verbal\u201d, ao negar a complexidade da realidade social, transforma-se em \u00e1libi psicol\u00f3gico para a ina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de erro meramente te\u00f3rico, mas de uma patologia pr\u00e1tica: ao rejeitar a pol\u00edtica real em nome de uma pol\u00edtica imagin\u00e1ria, o militante \u201cultra-radical\u201d abdica de disputar poder e entrega os espa\u00e7os ao advers\u00e1rio. Max Weber, a partir de uma matriz completamente distinta, j\u00e1 apontava o mesmo risco ao contrapor a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9tica da responsabilidade. A primeira, quando isolada, produz a confort\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o subjetiva de estar \u201cdo lado certo da hist\u00f3ria\u201d; a segunda exige avaliar consequ\u00eancias, custos e efeitos colaterais. A esquerda brasileira contempor\u00e2nea, em larga medida, escolheu a primeira \u2014 e paga, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, o pre\u00e7o da segunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do \u201cCansei\u201d ao \u201cFora Todos\u201d: a genealogia do vazio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito antes das Jornadas de Junho de 2013, o terreno j\u00e1 vinha sendo preparado. O movimento \u201cCansei\u201d, ainda que oriundo de setores m\u00e9dios e conservadores, inaugurou uma ret\u00f3rica profundamente despolitizante: o cansa\u00e7o da pol\u00edtica enquanto tal. Ao inv\u00e9s de enfrent\u00e1-la criticamente, parte da esquerda acabou assimilando essa linguagem, acreditando ingenuamente que slogans negativos poderiam servir como plataforma emancipat\u00f3ria. O grito de \u201cFora Todos\u201d, em 2013, foi a cristaliza\u00e7\u00e3o desse equ\u00edvoco. Ao apagar as clivagens de classe, ideologia e projeto hist\u00f3rico, a consigna transformou-se num discurso funcionalmente id\u00eantico ao da direita antipol\u00edtica. Como advertia Hannah Arendt, o vazio pol\u00edtico nunca permanece vazio: ele \u00e9 sempre preenchido por for\u00e7as mais organizadas, mais disciplinadas e menos constrangidas por escr\u00fapulos normativos. Foi exatamente isso que ocorreu. A extrema-direita compreendeu, com not\u00e1vel rapidez, que o ressentimento difuso e a hostilidade \u00e0 pol\u00edtica poderiam ser canalizados para uma lideran\u00e7a personalista, autorit\u00e1ria e moralmente simplificada. Bolsonaro n\u00e3o emergiu apesar do \u201cFora Todos\u201d, mas atrav\u00e9s dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSem Anistia\u201d: moralismo punitivo e impot\u00eancia estrat\u00e9gica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lema \u201cSem Anistia\u201d repete, em chave penal, o mesmo erro estrutural. Ele parte de uma compreens\u00e3o moral da pol\u00edtica \u2014 h\u00e1 culpados absolutos e inocentes absolutos \u2014 e ignora o car\u00e1ter necessariamente estrat\u00e9gico das lutas sociais. Em vez de perguntar como derrotar politicamente o bolsonarismo, pergunta-se apenas como puni-lo. Trata-se de uma invers\u00e3o fatal. Carl Schmitt, apesar de suas posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias, foi perspicaz ao observar que o moralismo extremo na pol\u00edtica tende a absolutizar o inimigo, tornando-o indestrut\u00edvel. Um inimigo demonizado n\u00e3o pode ser derrotado politicamente; apenas eliminado \u2014 o que raramente ocorre sem produzir m\u00e1rtires. Hans Morgenthau, em chave liberal-realista, chamou isso de \u201cpensamento demonol\u00f3gico\u201d: a redu\u00e7\u00e3o de processos hist\u00f3ricos complexos a um \u00fanico vil\u00e3o cuja elimina\u00e7\u00e3o supostamente restauraria a ordem perdida. A esquerda brasileira, ao apostar no punitivismo seletivo, incorre num duplo erro: fortalece o Estado penal \u2014 historicamente dirigido contra pobres, negros e dissidentes \u2014 e contribui para a vitimiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de seus advers\u00e1rios. A experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 cristalina: pris\u00f5es pol\u00edticas raramente encerram movimentos de massa; com frequ\u00eancia, os revitalizam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A perda dos espa\u00e7os e a ilus\u00e3o do v\u00e1cuo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto se satisfaz com performances morais nas redes sociais, a esquerda perdeu \u2014 de forma continuada \u2014 os espa\u00e7os reais de sociabilidade e organiza\u00e7\u00e3o. As ruas tornaram-se hostis ou espor\u00e1dicas; os sindicatos envelheceram e se burocratizaram; as igrejas, especialmente nas periferias, foram hegemonizadas por teologias conservadoras; os movimentos sociais, quando n\u00e3o cooptados, foram esvaziados de capilaridade popular. Antonio Gramsci jamais se cansou de advertir: hegemonia n\u00e3o se constr\u00f3i por decretos nem por hashtags, mas pela ocupa\u00e7\u00e3o persistente da sociedade civil. Onde a esquerda se ausenta, a direita se instala. N\u00e3o h\u00e1 v\u00e1cuo no poder \u2014 apenas aus\u00eancia de disputa. Pierre Bourdieu acrescentaria que o abandono desses espa\u00e7os implica tamb\u00e9m a perda do capital simb\u00f3lico necess\u00e1rio para falar em nome do povo. Sem presen\u00e7a concreta, a linguagem pol\u00edtica torna-se autorreferencial, compreens\u00edvel apenas a pequenos c\u00edrculos militantes. A extrema-direita, ao contr\u00e1rio, fala a l\u00edngua do cotidiano, ainda que para difundir medo, ressentimento e falsas solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repeti\u00e7\u00e3o como sintoma de derrota<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As \u201crespostas-reflexo\u201d \u2014 slogans, palavras de ordem, campanhas morais \u2014 s\u00e3o repetidas exaustivamente porque substituem a elabora\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Como observava Rosa Luxemburgo, movimentos que temem a complexidade tendem a refugiar-se na repeti\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica de f\u00f3rmulas consagradas. O problema \u00e9 que o mundo muda, enquanto o discurso permanece im\u00f3vel. Assim, a esquerda brasileira passou a confundir coer\u00eancia com imobilismo, radicalidade com rigidez, princ\u00edpio com dogma. O resultado \u00e9 paradoxal: quanto mais \u201cradical\u201d se proclama, mais conservadora se torna em seus efeitos objetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o: responsabilidade hist\u00f3rica e maturidade pol\u00edtica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00eanin jamais defendeu a ren\u00fancia aos princ\u00edpios; defendeu, isso sim, a intelig\u00eancia pol\u00edtica necess\u00e1ria para realiz\u00e1-los. A incapacidade de distinguir entre gesto simb\u00f3lico e a\u00e7\u00e3o transformadora tem custado caro \u00e0 esquerda brasileira \u2014 e continuar\u00e1 custando enquanto persistir o conforto infantil de slogans moralmente satisfat\u00f3rios e politicamente est\u00e9reis. A extrema-direita cresce n\u00e3o apenas por seus m\u00e9ritos organizativos, mas tamb\u00e9m pelos erros reiterados de seus advers\u00e1rios. Ao agir de forma imatura, a pseudo-esquerda n\u00e3o apenas falha em cont\u00ea-la: atua como seu combust\u00edvel involunt\u00e1rio. Retomar a pol\u00edtica exige abandonar a fantasia da pureza, enfrentar a realidade sem anestesia moral e reconstruir, pacientemente, os instrumentos coletivos de a\u00e7\u00e3o. Como lembrava Weber, \u201cquem busca a salva\u00e7\u00e3o da alma n\u00e3o deve faz\u00ea-lo pela pol\u00edtica\u201d. A pol\u00edtica exige coragem \u2014 mas, sobretudo, exige responsabilidade.<\/p>\n<p>Vladimir de Mattos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem anistia! A palavra de ordem \u201cSem Anistia\u201d, repetida hoje quase como um mantra moralizante por amplos setores da chamada esquerda brasileira, tornou-se um sintoma eloquente de um problema mais profundo: a substitui\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica concreta por gestos simb\u00f3licos de autopurifica\u00e7\u00e3o, da estrat\u00e9gia por slogans, da organiza\u00e7\u00e3o por catarse. 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