O luto pela morte de alguém que amamos não acontece apenas no coração. Ele também transforma o cérebro. Quando uma pessoa querida parte, nosso cérebro precisa aprender pouco a pouco uma nova realidade: aquela presença que fazia parte da rotina não estará mais ali.
Nos primeiros momentos, é comum sentir uma espécie de desorganização interna. A memória continua esperando aquela pessoa: procuramos sua voz, imaginamos seus passos, esperamos uma mensagem ou até pensamos em contar algo que aconteceu. Isso acontece porque as redes neurais ligadas à memória, aos vínculos afetivos e os pensamentos ainda estão na presença de quem partiu.
E existem os objetos que ficaram: as roupas usadas, fotografias, um perfume ainda não acabado, mensagens gravadas, uma cadeira, um livro, um prato preferido ou até um simples copo, não são apenas coisas. Tornam-se pontes entre o presente e aquilo que foi vivido.
É por isso que abrir um armário e encontrar uma roupa pode provocar lágrimas. Sentir cheiro pode trazer alguém de volta por alguns segundos à nossa memória. Rever uma fotografia pode despertar a imagem e a voz, o jeito de sorrir, um abraço e momentos compartilhados.
Por isso, não existe um tempo universal para guardar ou se desfazer dos pertences de quem morreu. Algumas pessoas precisam manter tudo por algum tempo; outras sentem necessidade de organizar, doar ou transformar esses objetos em novas formas de significado. Nenhuma dessas escolhas determina o tamanho do amor.
Com o tempo, o cérebro começa a se reorganizar. A ausência vai sendo incorporada à nova realidade, sem que isso signifique esquecer. A saudade permanece, mas pode deixar de ser apenas dor e transformar-se também em memória, gratidão e significado. Porque algumas pessoas deixam de ocupar um lugar à nossa frente, mas jamais deixam de ocupar um lugar dentro de nós.
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